O meu pai e o seu compadre

Vou contar a história do meu pai e o seu compadre.

O meu pai tinha muita habilidade para diversos tipos de negócio, pequenos biscates. Matava porcos, vendia peixe, trabalhava na Ribeira, no peixe, cavava, semeava batata-doce. Eu ajudava-o a semear batata-doce e a cavar as batatas. Era um homem dos sete ofícios.

O meu pai tinha um compadre, o Zé Éguas. Eu gosto dos anexins, como “Zé Éguas”.

O compadre Zé Éguas tinha uma pequena camioneta. Era com ele que o meu pai gostava de ir para o interior do Alentejo vender peixe, porque normalmente era todo vendido. Quando chegavam de manhã muito cedo a Cuba, ou a outra localidade, o grito do Zé C. por aquelas ruas era “Levantem-se cabrões que eu cheguei!”. Aquilo era um pagode.

Umas vezes o compadre Zé Éguas e o meu pai estavam zangados e outras vezes estavam contentes, como era normal neste tipo de relação. Eles eram compadres porque o meu pai era padrinho de duas meninas gémeas que ele tinha. Ambos gostavam dos copos. O Zé C. era conhecido pelo “Badanudo”. O badanudo era um copo grande de vinho tinto que custava dez tostões nos anos 40.

Contaram certa vez, à venda do Mário Coxo, que eles estavam zangados. O compadre Zé Éguas chegou primeiro, tomou o seu badanudo, um copo grande, bastava fazer o gesto. Bebeu, assomou-se à porta e viu vir o compadre Zé C.. Como estavam zangados, bebeu o vinho à pressa e deixou mais dez tostões para pagar o badanudo do velho Zé C.. Bem, o Zé Éguas sai.

Entra o Zé C., bebe o badanudo e põe os dez tostões no balcão. Diz o homem assim “Ó Mestre Zé, o seu compadre já pagou”. Como estavam zangados, o Zé C. vai além à porta, mete os dedos às goelas, vomita o copo de vinho e diz “Encha outra vez que eu não preciso do vinho de cabrões”. Foi assim.


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O meu pai e o seu compadre

R. Amália Rodrigues 7, 7940-148 Cuba, Portugal

Recolha
António, Sines, 2017
Local e data reportados
Sines, Cuba / Alentejo Anos 40 séc. XX
Categoria
Terra e Mar
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